A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.
Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.
Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.
A verdade, de Carlos Drummond de Andrade
Mas como o povo diz: quem pergunta o que quer ouve o que não quer. E, felizmente, eles não são maria-vai-com-as-outras. E eu não gostei de ouvir que "os dois estão errados". Óbvio que não é verdade! Convenci alguns, outros não - a minoria obviamente, que eu chamo de oposição. hehe! Alguns disseram que foi apenas um ingresso de teatro. Mas, de qualquer maneira, eu fico com um pé atrás para a próxima. Então, lembrei-me deste texto de Fernando Pessoa que, ao contrário do Drummond, leio sempre.
“Encontrei hoje, em ruas separadamente, dois amigos meus que se haviam zangado um com o outro. Cada um contou a narrativa de porquê se haviam zangado. Cada um me disse a verdade. Cada um me contou as suas razões. Ambos tinham toda razão. Não era que um via uma coisa e outro outra, ou que um via um lado diferente. Não; cada um via as coisas exatamente como se haviam passado, cada um as via com um critério idêntico ao do outro, e cada um, portanto, tinha razão. Fiquei confuso desta dupla existência da verdade.”
Claro que contra fatos não existem argumentos. Mas ri de tudo o que aconteceu. Não está esquecido, nem esclarecido. Mas, esses textos me fizeram pensar que o outro pode ter tido lá suas razões. Odeio ser compreensível, mas sou. Fazer o quê, não é?
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