sexta-feira, 29 de abril de 2005

Plim Plim

Ou: Com paixão, talento e uma forcinha política, Globo chega aos 40 anos.

Voltei. Não vou dizer que não postei por preguiça (verdade), mas porque tive que fazer uma viagem longa (mentira) por motivos pessoais (mentira). Enfim... Nesta semana, a TV Globo do Rio de Janeiro comemorou 40 anos de inauguração. O teminha “Bom Dia” com um bando de gente vestida de branco está aparecendo a todo momento na telinha. Admito: Tenho medo. Bem, a TV carioca foi a primeira emissora de televisão das Organizações Globo, que viria a constituir, ao longo dos anos da ditadura militar, uma rede nacional de emissoras próprias e afiliadas que se transformaria em uma das maiores, mais lucrativas e mais poderosas redes de televisão do planeta.

-Bom diiiiiaaaaa

Ciente desse patrimônio, a cada dia, depois da novela-fiasco América, a rede está apresentando especiais que remetem a todos os gêneros de programas de sua grade. Falta de criatividade grita a todo instante. De onde saíram tantos programas toscos? É aquela festa na terça-feira? O aspecto hollywoodiano da noite de gala foi algo assim... digamos...no mínimo fake. E porque a seleção brasileira de futebol (!?) fez uma homenagem ao aniversário da emissora em um jogo contra a Guatemala (quem?!). Agora, veja! Por que não contra a Alemanha? Estou indignado. Alguém, por favor, me explica por que a seleção homenageou a Globo? E com Romário!!! Foi demais.

Bem, a Vênus platinada gaba-se de ser a grande divulgadora no mundo da cultura brasileira. Para o bem ou para o mal, é verdade, principalmente em função das novelas, de longe seus produtos mais rentáveis. Só para se ter uma idéia, em 2004, as produções da Globo, de novelas a mini-séries e musicais, foram vistas em 62 países e faladas em 24 idiomas. Portugal continua a ser o principal parceiro da emissora.

Balão Mágico e Xuxa: alguma criança da década de 80 os renegaria?

Mas, o que fez com que a TV carioca se transformasse nesse imenso conglomerado? Paixão? Talento? Sacadas estratégicas geniais? Ah, não mesmo! Aliás, somente as pedras da Chapada Diamantina ainda não conhecem a estreita relação entre a Globo e o poder neste país. Resumidamente, a TV Globo foi ao ar no Rio em 1965, pouco mais de um ano após o golpe militar. Um pouco antes, em 1962, o Seu Roberto havia assinado com o grupo americano Time-Life um contrato de colaboração, mantido durante muito tempo como uma espécie de segredo de Estado...

O acordo, que era contra as leis brasileiras, deu vantagens decisivas ao dono da Globo. Vantagens, digo, em milhões de dólares. Como antes do AI-5 o Congresso ainda funcionava com certa liberdade, o acordo motivou uma CPI. No final, a comissão apresentou um relatório considerando o acordo ilegal. Dessa maneira, a parceria foi dissolvida em 1969 e Roberto Marinho ficou com total controle da TV Globo, enquanto suas concorrentes Excelcior e Tupi entraram em declínio. Elas faliram e perderam a concessão, respectivamente, em 1970 e 1980. Para quem quiser saber mais, toda essa história está documentada no livro "A Verdadeira História da Rede Globo" de Daniel Herz.

Chacrinha e TV Pirata: a cara do Brasil

Com a ditadura, o crescimento passou a ter uma ajudinha oficial, uma vez que a televisão e o futebol tinham o objetivo, na época, de integrar o Brasil. Por isso, o primeiro telejornal a atingir praticamente todo o território brasileiro foi (qual? qual?) o Jornal Nacional, esse mesmo, apresentado pela primeira vez em setembro de 1969. Foi assim nasceu a rede. Em 1972, o período mais duro da ditadura, o presidente Médice fez uma famosa declaração: "Sinto-me feliz todas as noites quando ligo a televisão para assistir ao jornal (Nacional). Enquanto as notícias internacionais dão conta de greves, agitações, atentados e conflitos em várias partes do mundo, o Brasil marcha em paz, rumo ao desenvolvimento. É como se eu tomasse um tranqüilizante após um dia de trabalho." Não sei, mas pode ter sido daí que surgiu a história de que o Jornal Nacional tinha até pouco tempo a “mania” de colocar uma matéria positiva, ou pra cima, depois de uma notícia pouco agradável. Enfim...

Mas a questão é que nas últimas quatro décadas, os exemplos de interferência direta da Rede Globo na política são numerosos, passando pelo boicote à campanha para a realização das eleições diretas, em 1984, e pelo apoio a Collor expresso, sobretudo, na reedição do último debate entre os candidatos no segundo turno das eleições presidenciais de 1989 e, depois, pelo apoio tardio ao movimento pelo seu impeachment, em 1992. Eu não sou carioca, mas sei que Brizola e a Globo não se davam. Inclusive, reza a lenda que Brizola disse que caso fosse eleito presidente, a primeira coisa que faria quando sentasse na cadeira presidencial e pegasse na caneta mont blanc presidencial, seria tirar a concessão da Globo. Bem... Brizola nunca foi eleito presidente, não é mesmo? Aliás, para não perder um bonde da história, em 2004, após a confirmação da vitória, Lula ganhou mais de 20 minutos de entrevista no Jornal Nacional. Muita coisa para quem só aparecia na telinha do plim-plim em horário eleitoral gratuito ou para ser avacalhado. A Globo atualmente segura a ondas de Lula. Onda não: ondas.

"Sua desclassificada", diria Odete Roitman à Gabriela, duas das personagens mais marcantes da Globo

O resultado de tudo isso é que Globo tomou a dianteira na cobertura de fatos importantes do Brasil e do mundo e também na introdução de tecnologia moderna: transmitiu ao vivo a Copa do Mundo de Futebol na Inglaterra, em 1966; foi pioneira na transmissão, via satélite, do lançamento da nave espacial Apollo IX, em 1968; a primeira a operar em rede no Brasil, com o Jornal Nacional e a primeira a estrear uma programação nacional em 1975. Além disso, abriga os melhores profissionais da área. Trabalhar na Globo é símbolo de status e fama. Pode comer qualquer um... (hehe!)

Por falar nisso, tem outro ponto que eu acho interessante quando se fala da Rede Globo. Se eu não estiver enganado, depois da implantação do Plano Real, em 94, onde a galera miserável (a maioria da população brasileira) passou a adquirir eletroeletrônicos e a comer frango e a classe média teve acesso a TV à cabo, a audiência da Vênus Plantinada deu uma cambaleada. Surgiram programas populares, movidos a sangue, e o decantado padrão Globo de qualidade foi posto à prova. A década de 90 foi praticamente um inferno astral para a emissora carioca, que detém a maior fatia do bolo publicitário brasileiro.

- Já fui! Deixo o meu legado para o Brasil!

E para não dizer que só falei mal da Globo e estou cuspindo no prato em que comi, admito que tive bons momentos com o monopólio da Globo. Sem opção, o que há de se fazer, não é mesmo? Bem, começando pela minha infância na famigerada década de 80: curti bastante o Balão Mágico (tudo), Sítio do Pica-Pau Amarelo (a cuca era uma coisa terrível! Só fui descobrir que era um jacaré anos depois), Xuxa com as paquitas e os brinquedos da saudosa (!?) Estrela. Odiava o Chacrinha, mas depois que ele morreu, sinto saudade. Depois, novelas memoráveis, programas de humor como TV Pirata que fazem falta, enfim... Espero que os próximos 40 anos sejam um pouco diferente. Se ela chegar até lá.

Agora, responda: O que você gosta e o que você odeia na Globo?.
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sexta-feira, 8 de abril de 2005

Conto de fadas

- I love u, Charles.
-Oh, que gracinha!

O príncipe mais vítima de piada dos últimos anos vai se casar neste final de semana com Camilla Parker Bowles, chamada carinhosamente por José Simão, de Cara de Cavalo. Ora pois, minha gente! Não é um caso interessante, um conto de fadas às avessas? A mulher tem mais cara de bruxa que de princesa e o herdeiro da família real não é nenhum príncipe encantado. Pelo menos, aquele que conhecemos. Além disso, o relacionamento entre os dois foi marcado por adultérios, divórcios e morte de vocês-sabem-quem.

Entretanto, fica a questão. Camilla pode não ter beleza, nem ser fotogênica, pode não se vestir bem, mas, por outro lado, dizem que a mulher tem senso de humor, coisa que Diana nunca teve. Entende Charles e não se leva demasiadamente a sério nem o que dizem sobre ela: em uma de suas cartas ao amante, assina como “sua devotada mala velha”. Adorável. Não sei se beleza põe mesa, mas a inteligência é ou não sexy?

As pessoas se esqueçem que quando a gente se apaixona, não escolhe quem e ai daquele que disser que a(o) amada(o) é feia(o) ou qualquer outro adjetivo menos elogioso. Ou não é?
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quinta-feira, 7 de abril de 2005

O papa e o pop

Ou: Marcha do adeus

Eu até que tentei me controlar para não falar muita coisa sobre a morte de João Paulo II e do processo de escolha do novo papa. Queria apenas assistir de camarote. Mas é tanta comoção, dor, sofrimento, sacrifício, perseverança e, por que não?, apostas que a imprensa noticia a todo momento, que não dá pra ficar quieto. Se é difícil definir ou entender o momento histórico em que vivemos - já que não há o distanciamento necessário para qualquer análise - pelo menos dá para se destacar uma característica muito evidente dele: o espetáculo estéril, o simulacro.

- Ai, só mais uma fotinha!

Era evidente que a morte de João Paulo II seria um mega evento, comparado em comoção e cobertura (pelo menos em registro) à morte da princesa Diana e aos atentados de 11 de Setembro nos Estados Unidos. Mas há uma tendência da mídia, em especial das televisões, e também do Vaticano, por que não?, em mostrar mais as pessoas aos prantos ou se jogando umas nos braços das outras do que pessoas em pé tranqüilamente em uma fila de espera em silêncio. Isso não quer dizer que o evento seja fabricado. O fato é que o primeiro aspecto é apenas mais fotogênico e como diria Gisele Bundchen, business. A mídia tem hoje o poder de sustentar um clima de histeria coletiva e fabricar a imagem de um mundo mergulhado no pesar como nunca foi possível em outra época.

- Olha, se Jesus Cristo aparecer, não sei se vou aguentar!

Se Jean Wyllys, vencedor do Big Brother Brasil 5 da Rede Globo, teve uma recepção apoteótica no aeroporto de EsseEsseÁ e levou mais de 30 mil pessoas (alienadas) ao centro de Alagoinhas num quadro de comoção popular nunca antes visto naquelas terras, o que dizer da autoridade máxima da Igreja Católica, uma instituição milenar com milhões de seguidores no mundo e que há um pouco mais de 500 anos era a mais poderosa organização da face da terra. Precisa? Ainda mais sendo um personagem popular, chamado no Brasil por João de Deus. Resultado: milhares de fiéis estão participando da marcha do adeus ao papa na Cidade do Vaticano.

Guilherme Fiúza, colaborador de No mínimo, no texto “O papa empalhado”, faz uma análise interessante da veneração ao corpo morto do papa, “carregado para lá e para cá no meio da multidão como um Quincas Berro D´Água”. Diz ele: “Se os fiéis que entopem os funerais do papa declaram sentir-se, diante de sua figura mumificada, como se estivessem na presença de Deus, é preciso parar tudo e mandar todo mundo de volta à primeira comunhão. Lição número um: Deus é espírito. (...) O desfile do papa morto pode até fazer algum sentido para os ateus e os materialistas. Desmistificação da santidade, curiosidade mórbida, essas coisas. Mas o mortal que tem alguma presunção de espiritualidade na carcaça deveria tratar de apontar sua emoção para outro lado. Deus não está ali, nem João Paulo, nem Karol Wojtila. Não há mais ninguém em casa”.

- Nossa, quanta gente!

E o Brasil, heim? O país com maior número de pessoas que se declaram católicas não poderia ficar de fora desse mega evento. Eu sempre digo: como não ser católico, sendo brasileiro? Se você for se consultar com uma vidente, ela pede para você rezar o Pai Nosso. Se vai num candomblé, a mesma coisa. Enfim... O presidente Lula e o fervoroso Severino Cavalcante, além de comitiva de políticos, estão indo à Roma. Até Fernando Henrique, reconhecido ateu, vai. Quanto à nossa mídia, fora o cachecol de William Bonner, que deixa claro à Ilze Scamparini quem é que manda no jornalismo da TV Globo, ela está fazendo o seu papel. Sempre a partir de uma perspectiva católica.

Matérias como “catolicismo está perdendo espaço no país” ou “número de evangélicos duplicou na América Latina durante o pontificado de João Paulo II” pipocam por aí. Na última terça-feira, saiu essa pérola em um jornal da imprensa baiana: “A eleição de um papa brasileiro é muito improvável, pois a América inteira só tem 39 cardeais com direito a voto e a Europa tem 61. Contudo, não deixa de ser sensata a colocação de Lula de que a Igreja Católica deveria eleger um papa brasileiro. Não pelo nacionalismo, mas simplesmente porque o Brasil é o maior país católico do mundo e tem sofrido (?!) , nos últimos 30 anos, um ataque (?!) protestante (evangélicos) implacável (?!).” Pode?

- Eu tenho fé!

Aliás, eu também queria ir a Roma. Não para ver o funeral do papa, mas para saber quais os critérios objetivos e subjetivos que os cardeais utilizam para escolher o Sumo Pontíficie. Está claro que não são levados em conta apenas aspectos religiosos. Papa negro, nem pensar. Latino, ainda não. Americano, humm... não tem moral. Então, só resta Europeu, que deve ser italiano. Eu também quero ver o Vaticano. É engraçado que as pessoas normalmente associam algumas igrejas ao dinheiro. Mas, ainda não vi nenhuma reportagem sobre a riqueza da Igreja. Acho muita opulência. Só mais uma coisa: acho muito interessante quando os muçulmanos (O islamismo é a religião com o maior número de adeptos no mundo) vão à Meca. As imagens chegam ao Ocidente sempre como um bando de fanáticos que se atropelam para cumprir uma missão. É um filtro, não é verdade? Como eu disse no início: é difícil entender.

Bonus Track:
(...)Se eu quiser falar com Deus
Tenho que me aventurar
Tenho que subir aos céus
Sem cordas pra segurar
Tenho que dizer adeus
Dar as costas, caminhar
Decidido, pela estrada
Que ao findar vai dar em nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Do que eu pensava encontrar

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segunda-feira, 4 de abril de 2005

E chove...

EsseEsseÁ encontra-se em estado de emergência desde sábado. Mais uma vez por causa das chuvas, o carma dessa cidade, que fez no último dia 29 de março, 456 anos. Mais uma vez cenas de sofrimento da população se repetem, assim como tornamos a assistir, mais uma vez, a incompetência das autoridades frente ao previsível. É só uma chuvinha cair que a Terra da Felicidade mostra não sua cara, mas as suas feridas, que são muitas. E todo ano é sempre “mais uma vez”... Chega até a desanimar, sabe? Ver miséria cansa e faz mal a saúde. Sou do lema que “gente é pra brilhar, não pra morrer de fome”. E acredito nisso. Mas, por aqui, não tem jeito.

Foto do ano passado. Mas, como não mudou nada, ninguém vai notar, né?

Se para mim sair no sábado pela manhã foi uma das piores experiências de minha vida – porque tive que atravessar uma rua com água no joelho – o que será para uma pessoa perder uma casa, um carro, algum parente, ou ser levado por alguma correnteza, morrer soterrado, ser atingido pelo tronco de alguma árvore na cabeça, etc. Que lugar é esse? Tudo isso já aconteceu e acontece frequentemente nesta cidade festeira que tem clima tropical superúmido. Lembram? As pessoas geralmente se esquecem do básico. De cada 365 dias do ano, sempre se dá algum tipo de precipitação na capital baiana em pelo menos 240 dias. Por que será que ninguém trabalha para dar a esta velha cidade, que chove dois em cada três dias, uma infra-estrutura capaz de evitar tanto desespero?

A chuva não é nenhum fenômeno comparável a uma avalanche, nem terromoto, nem tsunami, mas tem conseqüências desastrosas em cidades pobres, sem planejamento, com governo deficiente, e com distribuição de renda extremamente desigual quanto EsseEsseÁ. Já são mais de 1.200 soteropolitanos desabrigados em menos de uma semana, e a meteorologia indica que choverá mais, muito mais, até, pelo menos, quarta-feira. O jeito pelo que se vê é rezar em alguma das 365 igrejas católicas e dezenas de terreiros para ver se São Pedro dá alguma uma trégua. Mas eu particularmente acredito que não adiantará muita coisa, não.
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sexta-feira, 1 de abril de 2005

Mu-Dança

Para homenagear o mês que começa, vou colocar um texto de meu amigo Marlon, que eu simplesmente adorei e me apropriei. Mais abaixo, a música Sonho Real, de Lô Borges, que ouvi agorinha em uma rádio cantada por Gal Costa. Eu não sabia que gostava tanto dessa música. Foi lá no fundo, sabe? E combinou! Como diria minha crente favorita (que eu não conheço), com o punho fechado balançando no ar e os olhos fechados: "Obrigado, Jesus!"

Novo Abril
Por haver em nossas vidas a chance do inesperado, acordando-nos com o dia à luz da Possibilidade. Essa mágica descrita nos olhos que chegam, aconchegam, aquecem e permitem-se... Olhos-palco à uma apresentação tão almejada. E tudo dança o recomeço na ampla coreografia do deus Mu-Dança. E tudo mais que dia, como fantasia, se faz verdade e coragem para ensaiar o AMOR que se busca.

Parece que abril vem de outro jeito. Sem melancolia chuvosa, sem azares, sem mágoas, sem vãs recordações... Abril vem chegando no galope dos arianos, abrindo qualquer porta, dialogando com qualquer novidade... Abril da sorte, do vento suave trazendo conforto, flores azuis, azuis, azuis e azuis quatro vezes falando.

Abril nos olhos negros do amor fitando, na força inexplicável da vida, no movimento da criação, na insistência da idéia, na persistência do coração e nas águas mágicas advindas das perspectivas. Abril do Amor e das Possibilidades! Amém.

Sonho Real
À primeira vista
A paixão não tem defesa
Tem de ser um grande artista
Pra querer se segurar
Faz tremer a perna
Faz a bela virar fera
Quando alguém que a gente espera
Quer se chegar

Só de pensar
Já me faz mais feliz
Nem bem o amor começa
Eu já quero bis

Chega e instala a beleza
No mesmo momento. . .


Ilusão tão boa
Quanto o astral de uma pessoa
Chega junto, roça a pele
E já quer se enroscar
Lê seu pensamento
Paralisa seu momento
Ao se encostar

Felicidade pode estar pelo sim
Às vezes do teu lado
Tem alguém afins

Chega e instala a beleza
No mesmo momento. . .


Vem andar comigo
Numa beira de estrada
Desse lado ensolarado
Que eu achei pra caminhar
Vem meu anjo torto
Abusar do meu conforto
Ser meu bem em cada porto
Que eu ancorar

Felicidade pode estar pelo sim
Às vezes do teu lado
Tem alguém afins

Chega e instala a beleza
Momento de sonho real...


Atualização às 17h30
Estou ansioso pelo ritual que se seguirá em função da morte do Papa João Paulo II. O Vaticano ainda não confirmou. Definitivamente, é um evento que não acontece todo dia e eu não me esquecerei jamais.
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quinta-feira, 31 de março de 2005

Maktub

Não tenho mais a mínima paciência em ouvir falar de Paulo Coelho. Depois que as três maiores revistas semanais do Brasil tiveram a sacada genial de publicar ao mesmo tempo matérias sobre o mago em suas capas, meu limite de tolerância chegou ao fim. Só me resta dar os meus parabéns à assessoria de imprensa do “escritor”. Primeiro porque as reportagens parecem ter sido escritas pela mesma pessoa. Depois, por causa da bajulação e informações infundadas a respeito do autor, sua obra e importância na literatura nacional, para não dizer internacional. Será que não foi o próprio mago quem escreveu? Sei não.

Bem, não sou daquele tipo de pessoa que não lê e não gosta. Li Paulo Coelho, sim. Há uns 13 anos atrás, li até o fim os livros (manuais) Diário de um mago, O Alquimista e Brida. Não me lembro se li As Valquírias... Enfim... Também cheguei a acompanhar algumas de suas crônicas Maktub, chegando a recortar algumas delas, inclusive. Anos mais tarde, tentei ler Nas margens do rio Piedra eu sentei e chorei. Capitulei: não consegui passar da quinta página. Definitivamente, cheguei a conclusão de que não é o meu tipo de leitura preferida. Mas acho digno as pessoas adorarem as palavras e idéias do mago, mesmo aquelas que se repetem ad infinitum.

- Sabe? Basta ser sincero e desejar profundo.
Você será capaz de sacudir o mundo. Vai!

Não há escapatória: Já são mais de 65 milhões de livros (manuais) vendidos. Anônimos e celebridades, ricos e pobres adoram as histórias de Paulo Coelho, de 59 anos. Entre as personalidades internacionais que já declararam publicamente serem fãs do mago, estão Bill Clinton, Shimon Peres, Russell Crowe, Sharon Stone e Madonna.

Mas, quando a deslumbrada Veja diz que o mago é o mais global e influente dos brasileiros, o que ela está querendo provar? Influente em que? Se ele vendeu esse tanto de livros, quem é realmente o beneficiado? Não é ele e seus editores? Será que este feito o igualará a Machado de Assis, Guimarães Rosa ou Clarice Lispector, que vendiam e vendem modestas edições de dois ou três mil exemplares? Em 2002, assumiu uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. Mas, em um lugar em que até José Sarney é chamado de imortal, tudo pode acontecer. E acontece.

Com 19 livros editados, Paulo Coelho já foi traduzido em 56 idiomas e publicado em 150 países. Seu livro (manual) mais vendido é O Alquimista, com 27 milhões de cópias. Quem quiser papel de parede para enfeitar o computador, pode pegar aqui. É de graça.

Sabe, os livros de auto-ajuda são o grande filão do mercado editorial. Paulo Coelho está rico e vive nos Pirineus, entre a França e Espanha. E, Justiça seja feita ao mago: ele não responde às críticas, não sai caluniando e difamando nenhum dos que fazem restrições à sua obra. Segue fazendo aquilo em que acredita, fiel a seu "projeto literário" desde os primeiros passos. O que acontece é que a imprensa continua nos devendo um perfil de seu percurso. Um bom começo de pauta seria consultar quem entende do processo literário para avaliar seus momentos decisivos. E não apenas considerá-lo como espetáculo, fenômeno de globalização ou uma lenda.

Big Brother:

Se me perguntarem se a vitória do professor e jornalista baiano Jean Wyllis no BBB5 significa alguma coisa, hummm... muda alguma coisa, direi: Não significa absolutamente nada. Nada. Análises sobre esse tipo de programa não chegam a lugar nenhum. Big Brother é apenas um programa de televisão. Só isso. Deixem de viagem. Lembram da história das meninas que fugiram para EsseEsseÁ, que publiquei no post de 17 de fevereiro, não é? Pois é.
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terça-feira, 29 de março de 2005

O céu é o seu limite?

Tá bom. Vamos combinar que ninguém é santo. Eu não sou, tu não és, ele não é, nós não somos, eles não são. Portanto, vamos combinar mais uma coisinha: qual é o limite de se aceitar uma derrapada daquelas. Explico: você, enfim, aceita se encontrar com uma criatura bem apessoada, mas que você não dava a menor bola. Afinal, você conheceu numa festinha particular e ela estava aos beijos e amassos com outra pessoa e você, evidentemente, não é do tipo que quer encrenca. Tem a sua própria fila pra cuidar.

Além disso, era uma das principais participantes de uma ação bastante comum dos jovens atualmente: a conferência. Sem ter o que fazer e falar (não têm assunto), todos então pegam o celular de uma operadora em comum, ligam para uma pessoa qualquer (mas que alguém tem o número) para “se divertir”. O otário atende. Alguém do grupo se dispõe a passar o trote e as outras ficam ouvindo e curtindo a cantada. “- Oi, te vi em tal festa/bar e estou a fim de te conhecer. Você não sabe quem eu sou, mas você é assim e assado. Blá, blá, blá. Quero encontrar com você hoje”. São nove horas da noite de domingo! Meia hora depois de conversa, o songo mongo aceita o convite para dali a uma hora, mas pergunta: “- Que barulho é esse?”. E a outra: “- Ah, é que eu estou numa festa e tem gente conversando alto”. Mentira: eram os outros dando risada. Bonito, não? Uma dica: certifique-se, ao falar no celular, de que está conversando com uma única pessoa. Ou então, se for precavido, não faça declarações que possam servir de riso alheio. Telefone é um perigo nos dias de hoje.


Encontro marcado, ela enche a tua bola, fala maravilhas de você: que ficou encantada, etc., e que provavelmente você teve uma impressão errada dela. Aí você corta: “- Provavelmente não, tive mesmo”. Mas aí, você já bebeu umas três caipirinhas e duas cervejas e então tudo fica divertido, inclusive quando diz que o caso que estava com ela não era assim tão sério. Mas aí, você já bebeu umas três caipirinhas, duas cervejas e acredita.

Você começa a gostar, blá, blá, blá, e partem para mais encontros. Aí, definitivamente achando que você nasceu ontem, começa a dizer lorotas: “- Ah, não posso ir à praia porque só tenho R$50,00 e não consigo trocar. Vou ficar em casa”. No domingo à noite, dois dias sem ligar: “- Ah, fui no sábado para Paulo Afonso e só voltei agora”. Paulo Afonso fica a 471 km de Salvador. Alguém merece?

Engraçado que desrespeito é bem mais grave do que uma traição. Traição até dá pra perdoar, contanto que não haja repercussão, ninguém fique sabendo, pode até ser. Mas como voltar a confiar em alguém que um dia te enganou, mentiu? Que seja o amor de sua vida, seu amigo, o padeiro, confiança quando acaba é para sempre. Ou não? Eu mesmo tenho uma grande facilidade para eliminar gente de meus contatos (não, não contrato pistoleiro) e não sofrer por isso. Talento. Dia primeiro de abril está chegando aí. E vamos combinar mais uma coisa: a fila tem que andar. Sempre. Como diria minha baiana de acarajé favorita: - Próximo!
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segunda-feira, 28 de março de 2005

Eu só quero chocolate

Pois é. Findo o trabalho, qual a recompensa que me dou? Chocolate. Não resisto, sou fanático, viciado, e capaz de cometer loucuras por uma simples barrinha. É evidente que não espero a Páscoa para cair de boca no alimento dos deuses. Isso eu faço semanalmente. Mas, nesta época de sangue, dor e renascimento, eles estão por todo lado. Por isso, faço questão de dar e me dar este prazer, sem culpa. Como resistir? Este ano recebi três. Filei uns quatro.

Dizem que a história do "tchocolath" começou há séculos atrás, com as civilizações asteca e maia, na América Central, mais precisamente onde hoje ficam os territórios do México e da Guatemala. Lá no México, os astecas cultuavam o deus Quetzalcoatl. Ele personificava a sabedoria e o conhecimento e foi quem lhes deu, entre outras coisas, o chocolate. Os astecas acreditavam que Quetzalcoatl trouxera do céu para o povo as sementes de cacau. Eles festejavam as colheitas com rituais cruéis de sacrifícios humanos, oferecendo às vítimas taças de chocolate.

O imperador asteca Montezuma chegava a beber mais de 50 porções por dia - e cuidava sempre de tomar uma dose extra antes de entrar no seu harém. Isto fez com que Cortez, o conquistador europeu, e seus homens acreditassem que o chocolate poderia intensificar sua performance sexual. Ao retornar à Espanha em 1528, Cortez presenteou o Rei Carlos V com algumas preciosas sementes de cacau - e a partir daí, o chocolate começou definitivamente a fazer sua história, tornando-se tão popular e valioso na Espanha que sua produção foi mantida em segredo por mais de um século.

A escassez de chocolate durante o século XVII fez com que este se tornasse um presente de excepcional valor. Contudo, os monges monastéricos espanhóis, responsáveis pela manufatura do líquido, não conseguiram escondê-lo por muito mais tempo. Durante boa parte do século XIX, o chocolate continuou a ser consumido exclusivamente na forma líquida - mas a partir de 1861 passou a ser vendido na forma sólida, acondicionado em caixas com formato de coração. E apenas em 1876, em Vevei, na Suíça, o chocolatier Daniel Peter desenvolveu a técnica de adição de leite ao chocolate, criando o produto final que consumimos até hoje. Veja mais sobre a história aqui.

Como não ficar com água na boca com o filme Chocolate, com Juliete Binoche? Na película, às vezes cansativa, ela prepara delícias achocolatadas que fazem famílias se reconciliarem e casais voltarem a se apaixonar. Sei que é exagerado. Mas quem me dá chocolate já tem meio caminho andado. Outra coisa: sei que é pouco recomendado para a turma das dietas. Sei que é proibido em qualquer spa. Mas, em quanto puder... eu só quero chocolate. Alguém tem uma barrinha aí?
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quinta-feira, 17 de março de 2005

- Diga xis!



Desculpem a ausência. É que eu estou correndo mais que interno da Febem. Oportunidade que surge não se deve renegar, não é verdade? É o dinheiro, caralho!
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sexta-feira, 11 de março de 2005

Senhora do Destino

Ou: Nascer, crescer, reproduzir-se e morrer

Quando ouvia essas palavras no primário, na época em que estudava Ciências e tinha que decorar que o homem era composto de cabeça, tronco e membros, achava um tanto quanto determinista essa sina humana. Mesmo não tendo noção do que fosse, por exemplo, fenômenos como suicídio, Igreja Católica, desemprego, sonhos, Fernando Pessoa, aborto, tempo, medo, romantismo, frustração, assassinato - ou outras tantas coisas que interferirão de certo modo nesse mantra biológico - o fato é que com sete ou oito anos já via minha vida sendo resumida a quatro palavras. Ficava com raiva, desolado, com uma nostalgia que naquele momento eu não saberia dizer o motivo. Coisas de criança.

- Eu nasci, cresci, me reproduzi e vou casar. Eu sou a mocinha

Pensando bem, até que nos animais irracionais essa condição era para mim bem lógica. Afinal, eu via um pinto nascer, crescer, dar pro galo, botar ovo (reproduzir!) e morrer. (Sim, minha casa tinha quintal quando eu era criança). Engraçado que minha mãe nunca me deixou ver como se matava uma galinha. Ela fechava a porta da cozinha e dizia: - Saia! Até hoje, tenho um certo bloqueio com relação a isso. Horas mais tarde, via a coitada da galinha morta sobre a mesa. E, não sentia remorsos não, viu? Aliás, com um tempero maravilhoso sobre a ave, nem me lembrava mais dela.

- Eu vou morrer. Eu sou má e seca. Mas, também quero me reproduzir! Só a retirante é que pode dar ao mundo um bando de faveladinhos, é?

Por outro lado, tinha os animais que eu, digamos, desenvolvia sentimento, como os cachorros (da família) Playboy, 13 anos, Lassie, 8, e Bárbara Catarina, 1, que morreram respectivamente de velhice e atropelamento (as duas últimas). Havia cágados, gatos e também um periquito australiano que era tratado como periquita. (Simplesmente todos achavam que era fêmea. Até ovo botou o coitado. Morreu, aos sete anos, ao avançar sobre Shayanne, uma pastor alemão, recém-chegada, que ainda não tinha sido catequizada na convivência entre diferentes lá em casa. A cadelinha não contou conversa: resolveu brincar com o periquito como se ele tivesse o seu tamanho. Não gosto nem de lembrar. O periquito só faltava falar... Pronto, Já saí do tema!

- Alguns pensam que eu sou um aborto. Mas eu nasci e cresci. O que é reproduzir, hein?

A vida desses animais mais próximos tinha, então, uma peculiaridade: seguiam seu ciclo, sem chamar muita atenção, até que... morriam. Era muito trágico. Provavelmente, foi o meu primeiro contato com a morte e com o crescer. O engraçado é que quando criança, o crescer passa meio lento. O dia é mais longo, o Natal e o nosso aniversário não chegam nunca e as distâncias são maiores. Tudo demora. Depois vem a adolescência e vamos crescendo e aprendemos, assim, que aos trancos e barrancos temos que seguir em frente. Hoje, fico realmente fascinado com a visão que adquirimos das coisas, das pessoas e da própria vida ao longo do tempo. Se eu comparar o que penso e faço hoje com o que eu pensava ou (não) fazia há cinco anos, por exemplo, nossa, que mudança absurda! Não tem nem graça voltar no tempo, que por sinal passa cada vez mais rápido.

- Nós juntas não podemos reproduzir, né, Mylla?
- Ainda não. Por enquanto, só podemos adotar!

Falo isso observando as mudanças físicas também. Muita gente reclama da força que o tempo exerce sobre o corpo. E elas têm razão, ele é implacável mesmo. Quando vejo minha avó de 95 anos, por exemplo, (ela é de alguma forma um espelho) dá um certo espanto notar como a pele fica marcada, enrugada, despregada do corpo. Por outro lado e em compensação, o que ela diz não tem preço. É aquela coisa: sabedoria só vem com o tempo. Pois, no quesito de mudanças físicas, modéstia à parte, vou indo muito bem, obrigado. Cada dia melhor por sinal. Ver fotos antigas melhora minha auto-estima pra caramba. Passei a gostar da forma que meu rosto está tomando, mais adulto, forte. Entre outras mudanças, evidentemente. Resultado: só tenho a ganhar com esse tal crescimento. Espero.

- Eu morri e vou pro inferno.

Aliás, é com esse crescer, que minha Pró de Ciências não disse, que vem as conquistas, as decepções, os amores, queixas, ódios, irritações que não aconteciam antes, descobertas, amizades, desencontros, desilusões, frustrações, vitórias, perdas e um emaranhado de acontecimentos e sensações nada fáceis de compreender. Um susto e uma surpresa atrás do outro praticamente. Por isso que sempre falo uma frase de Gabriel Garcia Marques que li em "O amor nos tempos do Cólera": Que “Deus (!?) nos dê aquilo que somos capazes de suportar”. Afinal, nossos problemas e dores são sempre maiores e mais fortes do que os alheios, não é verdade?

- Eu também morri e agora sou uma alma penada!

E aí vem os questionamentos dos os efes e erres da vida, pomos nossas máscaras (a depender das pessoas e situações) e seguimos os padrões. Ou lutamos contra. Afinal, qualquer padrão exclui e serve de infelicidade para pessoas que não se adaptam a ele. Começamos a amar, a nos misturar, a procurar identificações. E aí vem a história da reprodução.

Não, ainda não penso e nem quero fazer isso atualmente. Pra dizer a verdade, nem me preocupo. Mas percebo que é uma vontade que a cada ano ganha um peso maior. É alguma sina, o querer cuidar de alguém, ver o seu crescimento e suas peculiaridades, perpetuar a espécie? Como é ser alguém que não deixa descendentes e dá uma de Brás Cubas, aquele personagem de Machado de Assis que disse “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”? Também tem a questão da adoção? Mas, e daí, será que é legal? E aquelas que ficam pra tia? Enfim... o que dá se a pessoa resolve sair do padrão? (Olha ele sempre presente!). Nós temos o poder do livre arbítrio, ou não? Qual a diferença entre ter descendentes na velhice ou não ter descendentes? Quer saber... ainda é muito cedo pra falar sobre isso. E não vou nem comentar sobre o morrer. Afinal, ninguém voltou para dizer como é que é, e eu também não estou a fim de experimentar por enquanto.

Bonus Track
Termina hoje, a novela Senhora do Destino, da Globo. Sinceramente, não achei a menor graça. Tirando a vilã Nazaré, não sobraria muitas coisas. Fazer o quê, não é? Senhora do Destino é o maior sucesso da Globo nos últimos nove anos e a novela mais vista pelos brasileiros. Agora, vai começar o samba do crioulo doido da Glória Perez, América.
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quinta-feira, 10 de março de 2005

Pra quê Lenny?


Apesar de não contar com a apresentação de Lenny Kravitz, EsseEsseÁ neste mês de março terá grandes shows de novos e grandes nomes da MPB. Foi bom ser assim: o meu rico dinheirinho, por sinal, será melhor direcionado. Entre os novatos, está a mato-grossense Vanessa da Mata. Ela se apresentará amanhã, pela primeira vez, na mais importante casa da cidade: o Teatro Castro Alves. Isso é significativo porque demonstra o crescimento de uma das melhores revelações dos últimos anos na música nacional. O show será baseado no CD “Essa boneca tem manual”, seu segundo trabalho, que me agradou bastante. É dele as canções “Ainda bem” e “Música”, que emplacaram nas rádios (o que não quer dizer nada sobre a qualidade delas). Vale conferir.

No sábado, o destaque na cidade fica por conta do ministro Gilberto Gil. Ele mostrará o seu show Eletracústico, onde comemora 40 anos de carreira. Nele, serão apresentadas pelo cantor suas canções de maior sucesso (clássicos), como “Refavela”, “Andar com Fé”, “Aquele Abraço” e “Se eu quiser falar com Deus”. O show acontecerá na Concha Acústica do Teatro Castro Alves.

Tem mais: na próxima sexta, 18, Zizi Possi também estará na Concha e nos dias 19 e 20, Maria Bethânia, comemorará 40 anos de carreira, apresentando o show “Tempo, tempo, tempo”, no TCA.
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terça-feira, 8 de março de 2005

Ser Mulher

Ou: as feias que me desculpem, mas beleza é fundamental *

Sabe o que eu acho do Dia Internacional da Mulher? Importante e necessário. Uma consquista. Sabe o que eu acho das homenagens às mulheres no Dia Internacional da Mulher? Dispensável. Pelo menos, 90% de tudo o que se ouve e se vê nesse dia pode ser considerado discurso vazio e repetidor. Isso mesmo. Simplesmente, acho esquisitas determinadas homenagens com rosas e poemas melosos nesse dia. É bom deixar claro que não sou contra às celebrações. Ao contrário.

A questão é que ninguém me tira da cabeça as esquisitices e distorções que acontecem nessa data, como o título de uma matéria que um jornal publicou hoje: “As mulheres, mães, trabalhadoras, sofredoras, terão hoje todas as homenagens na passagem do seu dia”. Vejam, as três últimas palavras mudam todo o sentido simbólico da data, como a maior parte das homenagens “especiais” que acontecem no dia 8 de março. É como se, na verdade, se anunciasse: “- Amanhã, mulheres, voltem a sua realidade”.

Nesse sentido, considero mais estranho ainda quando um varejista ou seja lá o que for, como o Extra (poderia citar outros), publica anúncios homenageando as mulheres pelo “seu” dia. Mais uma distorção. Como achei uma pérola os anúncios, compartilho aqui. No primeiro deles, uma imagem de uma mulher sorrindo (elas sempre sorriem), com uma rosa vermelho-rubro no lado esquerdo (com o botão na altura de seu coração), com os seguintes dizeres: “O Extra faz de tudo para que você se sinta ainda mais mulher. Extra, o Hipermercado da mulher brasileira”. Fiquei comovido, mesmo não sendo mulher. Em outro anúncio, imagens de produtos como hidratante, deo colônia, desodorante, etc, com a mensagem: “As ofertas do Extra são uma verdadeira homenagem a todas as mulheres brasileiras”. E aí, mulher brasileira, que é que você acha desse tipo de “homenagem”, heim?

Brincadeiras à parte, o Dia Internacional da Mulher é, antes de tudo, um dia de reflexão. É um dia para se rever preconceitos e limitações que ainda vêm sendo impostos, em maior ou menor grau, a elas em todo o mundo. Não é um dia pela mulher, como se não soubéssemos de sua humanidade, (assim como não existe Dia Internacional do Homem, como muita gente sem noção questiona), mas sobre as situações pelas quais quem nasceu nessa condição passa. O escritor tcheco Milan Kundera, em "A insustentável leveza do ser", faz uma análise interessantíssima sobre isso: “Ser mulher é para Sabina uma condição que ela não escolheu. Aquilo que não é conseqüência de uma escolha não pode ser considerado como mérito ou como fracasso. Diante de uma condição que nos é imposta, é preciso, pensa Sabina, encontrar a atitude certa. Parecia-lhe tão absurdo insurgir-se contra o fato de ter nascido mulher quanto glorificar-se disso”. Acredito que essa análise pode ser, inclusive, estendida para qualquer outro grupo de pessoas: homem, negro, gay, etc.

- Ai, tá vendo como é bom ser mulher? Dá ate desconto no Extra. Tudo!

Pois bem, partindo do pressuposto de que ninguém escolhe ser homem ou mulher, “é preciso encontrar a atitude certa”. Historicamente, a mulher sempre foi excluída pelos homens. Se elas tiveram alguma participação social, sempre foi pela porta dos fundos. Afinal, os conceitos de mulher e feminino (natureza feminina) foram sempre retratados por uma ótica masculina. E, segundo os homens, as mulheres são seres de silêncio, que devem ficar com as tarefas do corpo, da procriação, da casa, da agricultura, da domesticação dos animais. E a mulher que fala ou se insurge deve ficar, na maioria das vezes, trancada em casas, escolas, conventos e manicômicos como histéricas. Até hoje, século XXI, as mulheres são trancadas. E até hoje, as mulheres que falam são tratadas como histéricas.

A verdade é que esse silêncio das mulheres teve o seu momento pérfido, quando foram levadas à fogueira, e teve também o seu momento cínico, quando foram transformadas no “belo sexo”. Condição essa produzida pela cultura com o apoio da filosofia e das artes. A produção do ideal do belo sexo, a propósito, é uma marca da modernidade. Por isso que, quando 130 operárias têxteis, ao reivindicarem a redução de sua jornada de trabalho de mais de 16 horas por dia para 10 horas, foram queimadas vivas dentro de uma fábrica, na verdade elas estavam querendo quebrar o silencio a que estavam sendo submetidas. Esse ato aconteceu no dia 8 de março de 1857 em Nova Iorque. Elas não estavam a fim de receber rosas nem descontos em supermercados. Queriam igualdade. Por isso que a questão feminina é atual e a solidariedade de todos é necessária para o próprio futuro da humanidade. Vamos celebrar as conquistas, sim. E dar rosas não necessariamente hoje, mas sempre que tiver vontade.

Bonus Track
Mais uma pérola da imprensa sem pauta.

"No Dia internacional da Mulher, duas grandes atrizes brasileiras protagonizam a eterna luta entre o bem e o mal e monopolizam a atenção dos telespectadores tupiniquins. Exageros e inverossimilhanças à parte, Renata Sorrah (Nazaré) e Suzana Vieira (Maria do Carmo), na novela Senhora do Destino, mostram como a mulher pode ser mesquinha, má, bandida ou decidia, honesta, empreendedora, encantadora, bom caráter. Nisso, elas estão em pé de igualdade com os homens. Conheçam melhor essas duas atrizes e suas histórias reais.” Agora, me digam: Tem algum sentido isso? Pode?

Bonus Track 2
Do Macaco Simão

“O mundo é das mulheres. Não adianta discutir. Aliás, se discutir, é pior! E aí diz que Deus criou o mundo em seis dias, no domingo descansou, na segunda criou a mulher. E aí ninguém mais descansou! E um amigo meu diz que vai comemorar o Dia da Mulher comendo a própria. E uma amiga me disse que vai comemorar tendo vários orgasmos múltiplos com eco. Pro prédio inteiro ouvir! E diz que mulher só transa com amor. Não é como homem que transa até com apple pie. Só porque é morna e gostosa! E uma amiga minha sapata me disse: "Eu vou comemorar o Dia Internacional da Minha Mulher. Rarará!"

* De Vinícius de Moraes.
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sexta-feira, 4 de março de 2005

Escolhas. De novo.

I
Ele abriu o freezer. Já fazia seis meses que pusera lá o coração. Achava que estava pronto para outra, agora que a esquecera. Tirou o pote e o depositou na pia. Enfiou o coração de volta na caixa torácica. Só então percebeu que ele não sabia mais bater.

II
Ele falava entusiasmadamente com ela quando a flagrou com aquele olhar maroto que antecede uma travessura. Ela o interrompeu uma fração de segundo depois dando-lhe um beijo de leve na boca e abraçando-o com genuína ternura. Ele não soube como reagir; teve ânsias de deitá-la no chão do bar lotado e possuí-la ali mesmo. Mas conteve-se. Sabia que ela confiava nele, e aqueles selinhos não eram incomuns entre eles.

Ela o olhou falando rápido como uma metralhadora, como de hábito, e sua alma tremeu. Pensou "que diabos, por que ele não me beija?". Logo começou a sorrir com os olhos e decidiu tomar a iniciativa. Queria calá-lo com um amasso poderoso, mas conteve-se. Saiu um beijo de amiga e um abraço de irmã. Ficou puta consigo mesma ao perceber que o deixara sem ação.

Foi o mais perto que chegaram de um romance.

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Estes dois textos foram retirados do "Minicontos do desconforto", de André Machado. Foi publicado no site Paralelos, que conheci por acaso, como a maior parte das coisas da net. Coloquei porque tem a ver com o texto que escrevi na última terça-feira, sobre difíceis escolhas. Só pra encher o saco. Bom final de semana para todos.
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quinta-feira, 3 de março de 2005

dePUTAdos

Sabe, eu também gostaria de ter autonomia para aumentar o meu salário em 67%. Acharia super justo. Afinal, trabalho muito, de segunda a sexta, faça chuva ou sol, e tenho (quando tenho) apenas 30 dias de férias remuneradas. Muito pouco. Meu chefe, mesmo não sabendo como, deveria apenas me pagar. Caso reclamasse, diria que um profissional francês ou americano do meu gabarito ganha muito mais, com condições de trabalho melhores. E a sociedade espera que um profissional como eu ganhe bem para não ceder a pressões externas e ferir a ética profissional ou pessoal.

Definitivamente, acredito que isso deveria constar no estatuto da empresa. Inclusive, eu também não deveria ter nenhum custo com alimentação, transporte, assistência médica/odontológica ou aluguel, nem me preocupar com contas de luz ou telefone fixo/móvel. Mas, o que ocorre é que infelizmente isso não acontece no mundo real. A não ser que você seja um dePUTAdo (senador, prefeito, presidente, juiz, etc.) brasileiro.

Cada dia que passa, o sórdido (porque irreal) episódio dos deputados federais ansiosos por aumentar seus próprios rendimentos fica mais intolerável. Acho inocente quem crucifica apenas Severino pela proposta, como vejo por aí. Ele apenas está dando sua cara (de pau) a tapa. Não tem nada a perder, como muitos políticos. Sua principal plataforma para ser eleito presidente da Câmara foi a elevação dos salários.

- Chefe, olha só. Taqui o aumento que eu me dou!
- Sei...Tá bom, fique esperando aí. Sentado, tá?

- Uó!

Também engana-se quem pensa que essas vozes que estão se levantando contra o aumento dentro do próprio Congresso não queiram elevar o valor de seu contra-cheque de R$ 12.840 para R$ 21.500. Severino, num momento de lucidez, os chamou de “demagogos”. E são mesmos. Eles estão empenhados, sim. Só precisam do momento certo. Não querem receber um 21 assim... sem aplicar uma vaselinazinha no povo brasileiro, como Severino Cabra Macho acha que deve ser. A coisa tem que ir com mais calma, devagarzinho, com jeito, e esperar que essa onda de reprovação passe. Como todo brasileiro, dePUTAdos não desistem nunca.

E como todo mundo quer se dar bem nessa estória toda, em Caraguatatuba (SP), o prefeito reajustou seu próprio salário de R$ 11 mil para R$ 18 mil. Os vereadores seguiram o exemplo. Em São José dos Campos, também em São Paulo, os vereadores de lá se deram um reajuste de 60%. Mas aí a Justiça embargou a decisão e a questão está sendo discutida. É de matar.

O que mais me deixa sem saber em que mundo estou é eles quererem aumentar em 67% seus salários. Um desses dePUTAdos chegou a dizer que pesquisas indicavam o apoio da sociedade à concessão do aumento. Não é para rir? O salário mínimo, depois de muita discussão, palavrório e acusações, vai passar de R$ 260 para R$ 300. Um reajuste de 15%. Se eles fizessem o mesmo com seus rendimentos, receberiam cerca de R$ 14.800. Por que 21? Que tara é essa, heim? Em compensação, o presidente Lula propôs 0,1% de reajuste para o funcionalismo federal. Tenho medo.

Atualização 04/03: "Eles são uns idiotas"
Enfim, a proposta de aumento de salários dos deputados foi parcialmente enterrada. A frase foi dita por Severino aos "demagogos" deputados que não tiverão colhões para enfrentar a opinião pública. Pelo menos, Severino aprendeu uma coisa: não se pode confiar em político.
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terça-feira, 1 de março de 2005

Difíceis escolhas

Ou: Dizem que a vida é simples. Eu acreditaria nisso se não fosse obrigado a tomar decisões nem escolher. Esperar decisões dos outros, então... Me mate logo.

Por acaso você está preparado para escolher? Sabia que algumas pessoas passam uma boa parte de suas vidas (ou toda ela!) questionando suas escolhas, imaginando o que poderia ter acontecido se tivesse agido de outra forma? Acredito (e não vou muito longe) que essa fase normalmente se intensifica a partir dos 30 anos: a partir daí, o muro das lamentações e do arrependimento se torna cada vez mais extenso. Pode reparar. E aí, você pensa: seria ótimo se tivesse uma segunda chance. Seria, meu bem.

A realidade, ao contrário dos livros de auto-ajuda, nos diz que não existe meio de verificar qual é a boa decisão. Aquela que nos dará o caminho da felicidade e satisfação. Aquela que nos conduzirá ao sucesso. Porque apesar de toda a estrada rodada e das armaduras e máscaras que colocamos para lutar e atuar dignamente, mesmo assim, tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. É como um ator que entra em cena sem nunca ter tido tempo para ensaiar. O primeiro ensaio da vida já é a própria vida e isso faz com que ela pareça sempre um esboço. Mas “esboço” não é a palavra certa para ela. Esboço é sempre um projeto de alguma coisa, a preparação de um quadro, ao passo que o esboço de nossa vida não é esboço de nada, é um esboço sem quadro.

- Ai, Jesus. Onde tá esse trem, heim?

Além disso, não existe termo de comparação para aquilo que somos obrigados a escolher em um dado momento. Por que? Porque estamos cercados por ene fatores: família, dinheiro, dependência, emprego, cidade, idade, sexo, escolaridade, amigos, amores, angústia, medo, insegurança, etc... Sempre ene fatores estarão presentes nas escolhas e a decisão que uma pessoa toma sobre alguma questão não necessariamente é a mais adequada para outra pessoa. Isso também vale para alguma resolução tomada anteriormente.

Por isso que julgar, por exemplo, uma mulher que deixou a faculdade para cuidar dos filhos e da casa e depois, abandonada pelo marido e desempregada, se arrepende da decisão, é complicado. Talvez ela realmente tenha acreditado que pudesse ser mais útil e importante no papel de mãe e dona de casa do que no de advogada. Talvez ela tenha tomado a decisão com base nos fatores que enfrentou na ocasião (“alguém tem que cuidar dos meus filhos”, “depois eu poderei fazer a faculdade”, “por que não casei com outro, cáspita?”, etc.). A personagem em questão adora um “E se...”.

Só que eu não acredito nem aceito que depois ela venha dizer que deixou a faculdade por causa dos filhos e por causa deles não realizou o seu sonho de ser advogada. Não dá pra engolir. A nossa estratégia, quando nos encontramos no córner, é sempre culpar alguém ou alguma outra coisa por ter nos forçado a tomar a decisão que não queríamos. Da mesma maneira, o que mais se ouve e vê, são relações sendo terminadas (sabotadas/boicotadas) porque A não está preparado, B está confuso, C está desempregado e D já sofreu demais. Olha os ene fatores aí! Não dá pra escapar.

Aí uma oportunidade aparece na sua vida. E você, porque não está preparado, está confuso, desempregado, ou já sofreu demais, deixa passar. Para essa situação, tenho uma comparação interessante. As oportunidades são iguais a um trem que passa de vez em quando na sua Estação. Quando um passa, você tem duas escolhas: 1) pegar o trem e sofrer as conseqüências boas ou más disso ou, 2) esperar o próximo passar. Só que tem um probleminha quanto a esse último: o próximo trem que você pensa que “agora, sim, estou pronto pra pegar”, talvez ele nunca apareça. Ana Karenina, por exemplo, escolheu trocar o marido e a sociedade por Vronski, seu amante. Terminou se suicidando. Foi uma escolha. E não adianta procurar vidente, consultar rezadeira, mãe de santo.

E por que foi que eu escrevi isso? Será que foi porque eu não tenho o que fazer? Também, mas na verdade é um desabafo, do tipo não-estou-disposto-a-esperar-decisões-de-gente-que-não-sabe-o-que-quer. Tá? Sou geminiano, preciso confabular. E, ah, quer saber de uma coisa? Tem dois tipos de pessoas: 1) Aquela que apanha da vida e aprende e, 2) aquela que precisa apanhar sempre mais um pouquinho para aprender.
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sexta-feira, 25 de fevereiro de 2005

Papa


E o Santo Padre, hein? Será que passa desse semestre? Ou desse trimestre? Ou dessa semana? Se ele for, aos 84, dessa pra melhor (ou pra pior, ninguém sabe), quem serão os beneficiados e os prejudicados, se houver. Não é possível que em um mundo com Bushs e Severinos, as coisas (intolerância, conservadorismo) piorem ainda mais. Considerações na segunda-feira. Estou atarefado e estressado demais. Perdi em duas provas desinteressantíssimas: Finanças e Métodos Quantitativos. Deus não me ajudou. Desde dezembro deveria ter estudado, mas resolvi fazer isso no domingo, em uma tarde. Como diria o Giovane, de Senhora do Destino: - me fudi-me. Tomara que amanhã faça sol e dê praia.
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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2005

Não se reprima!

É, é uma praga mesmo. O segundo grande show de um astro internacional a acontecer em terras baianas depois dos Menudos, em 1986, broxou. Lenny Kravitz não vem mais para a Bahia. A informação foi dada pelo produtor Júlio César, da RR Produções (agência de Brasília responsável pela turnê do astro no país), ao jornal A Tarde. O curto prazo em que as negociações foram fechadas e a longa distância entre EsseEsseÁ e as cidades do Sul/Sudeste do país, onde ele se apresentará, teriam sido os motivos da exclusão do estado.

“O interesse não era só dele, mas nosso também. Checamos nosso patrocinador e ele também queria, mas as negociações foram em cima da hora. Quando negociamos a turnê, ele disse que o local que gostaria de tocar no Nordeste era Salvador, onde aproveitaria para descansar por três ou quatro dias”, disse Júlio César.

Outro problema enfrentado pela produção é que Lenny cumprirá a turnê de ônibus pelo Brasil. Ele provavelmente deve achar que o país tem o tamanho da Holanda. De acordo com o produtor, ele evita viajar de avião e, quando não tem jeito, utiliza sedativos para encarar o vôo. “Nossa idéia era jogar o show do Rio para terça, dia 22, e fazer um quinto show na quinta-feira, 24, véspera de Sexta-feira da Paixão, em Salvador. Mas a distância para ele viajar do Rio de ônibus para Salvador é muito grande (1.800 km). E seria muito complicado transportar toda a estrutura, que é complexa, e montá-la na Bahia em pouco tempo”, revelou.

Celebrate!, o nome da turnê, conta com 20 toneladas de equipamentos de palco e uma equipe de 66 pessoas. Kravitz estará no dia 15 de março, em Porto Alegre, 17 em EssePê, 19 em Brasilândia e 21 no Rrrrio. Há uma remotíssima possibilidade de tocar em Belo Horizonte. Curitiba também foi descartada. O interesse de tocar em Salvador teria surgido quando Kravitz namorava a modelo baiana Adriana Lima. Agora, ele vai descansar no Rio antes de voltar ao exterior. Grande merda.

- Só lamento...

Bônus Track
Uma amiga, quando soube da última:
- Estou cansada de me deslocar até o Rio ou São Paulo para ter que assistir a shows de artistas internacionais que eu gosto, sabe?
- Sei...
- Foi com Madonna, com o Free Jazz, com o Tim Festival. Eu não aguento mais. Minha conta corrente estoura, fico pertubada.
- É verdade...
- O único que assisti aqui foi o Menudo na Fonte Nova. Foi "o" evento. Há 18 anos que eu espero que alguma coisa aconteça nessa cidade. Saco! Quer dizer... teve o Jimmy Cliff com o Gilberto Gil, mas isso não conta porque eu não gosto muito de reggae.
- Liga não, pra quem assistiu Cher em Nova Iorque, você está é muita chata. Mas apóio sua indignação. Onde já se viu isso?

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quinta-feira, 17 de fevereiro de 2005

Jenifer & Eleonora

Ao contrário das personagens Eleonora (Mylla Christie) e Jenifer (Bárbara Borges), que vivem um romance homossexual na novela Senhora do Destino da Rede Globo e conseguiram não ser rejeitadas pelo público do folhetim, a realidade nossa de cada dia consegue ser mais pródiga e menos condescendente com essas situações. Ainda.

Terminou de forma melancólica o caso das “amigas” paulistas que fugiram para EsseEsseÁ com o objetivo de tentar uma “vida nova”. C.C.W, 28 anos, formada em arquitetura e estudante do 6º semestre de Medicina, e M.A.C, 39 anos, foram localizadas, na madrugada de sábado, 12, pelos pais da primeira. Eles, com a ajuda da polícia, a levaram de volta para EssePê. Só para constar: os policiais entraram no hotel sem autorização judicial, dizendo ser a ação comum na cidade por causa do Carnaval.

Desesperada e sem notícias de C. desde então, M. procurou o Grupo Gay da Bahia (GGB) e pediu ajuda. “Ela pode estar presa, em cárcere privado, isolada do mundo, querendo falar. Por isso vou fazer de tudo o que puder para preservar a integridade física dela”, disse. Na quarta-feira, o caso veio a público e ganhou destaque na capa do jornal A TARDE, com a chamada: “Mulher luta para recuperar namorada”. Bem singelo.

- Não exagera. É de brincadeirinha, heim, Mylla!

M. e C. se conheceram há nove meses por intermédio de amigos comuns. Em dezembro, deram início ao namoro. No início de janeiro, a arquiteta aceitou o convite de M. para sair de EssePê e tentar uma nova vida em outro local. Primeiro foram para Porto Alegre, depois EsseEsseÁ. Os pais de C., médicos, ao saberem do paradeiro da filha, apresentaram na delegacia um relatório atestando que ela passa por “problemas de saúde” que requerem “cuidados médicos”. No boletim de ocorrência, também acusam M. de se aproveitar da situação de C. para fazê-la usar o cartão de crédito da família, no qual é dependente, para continuar fugindo. O gasto já estava em torno de R$ 5 mil. Foi, inclusive, por meio do cartão de crédito que os pais conseguiram rastrear os passos da filha e localizá-la.

O GGB “entendeu” que tal relatório, emitido por uma clínica particular localizada em Marília, EssePê, não tem validade. "Entendeu" também que a debilidade da saúde de C. é uma farsa forjada pela família para impedir o relacionamento das duas, demonstrando claramente discriminação sexual. Foi o gancho para Luis Mott, coordenador do GGB, considerar a família da arquiteta lesbofóbica (aversão a lésbicas). Mott acusou ainda a delegada de ser conivente com a situação, desrespeitando o direito humano da liberdade de dispor sobre seu próprio corpo. Ele disse: “A união da família e da polícia mostra o quanto os homossexuais são reféns do patriarcado familista, que é um conceito sociológico, onde família tem pátrio poder sobre seus filhos homossexuais”. Enfim...

Quando foi hoje, vem a notícia de que a arquiteta quis deixar a namorada e não foi levada a força pelos pais. “Nunca estive tão bem como estou agora”, disse C. em carta enviada ao jornal e ao GGB. “Que fique bem claro que não escrevi esse e-mail sob pressão. Escrevi apenas por achar necessário declarar que estou bem e para que parem de escrever mentiras em sites e jornais”. Sei...sei... Ela disse também que não foi retirada à força da capital baiana e que voltou para casa por livre e espontânea vontade. Tá... tá... Mas, aí, eu fiquei encucado: Se C. voltou pra casa por livre e espontânea vontade, por que ela ficou perambulando com a outra pelo país? Estava brincando de esconde-esconde com os pais por acaso?

M. não se conforma com a situação. “Como uma pessoa formada em Arquitetura e no sexto ano de medicina pode ser considerada incapaz?”, lamentava na delegacia. E o caso ficou por isso mesmo, sem o final feliz de Senhora do Destino.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2005

Soberbamente Daniella

Ou: Eu tenho o Ronaldinho, tá, meu bem?

"O que você tem contra mim?", Caroline perguntou. "Não quero você na minha festa. Mas Álvaro, você, se quiser, pode ficar", disse Daniella Cicareli, ao expulsar a modelo Caroline Bittencourt de seu pré-casamento no castelo de Chantilly, na França. Caroline acompanhava o empresário Álvaro Garnero, um dos melhores amigos do jogador fenômeno.

Daniella Cirareli está vivendo há alguns meses no mundo das maravilhas. Depois que oficializou no programa Fantástico, da Rede Globo, seu romance com jogador Ronaldinho, ela foi alçada à condição de celebridade de primeira grandeza e está com o poder. Por isso, está fazendo e acontecendo. E caga e anda pra todo mundo, inclusive para seus ex-amigos, que não conseguem reconhecer mais a “nova” Daniella. Muitos estão ainda magoados e incrédulos com a mudança repentina do comportamento e temperamento da ex-doce Dani.

- Ai, me erra, minha gente!

Na segunda-feira, 14, a modelo protagonizou, ao lado do milionário jogador, o mais badalado casamento (ops!, pré-casamento, união, espetáculo a dois, etc...) de todos os tempos da última semana. 250 pessoas, alguns deles brasileiros, foram convidadas (a maior preocupação de Cicarelli nos últimos meses era vetar nomes) para a boca livre no Castelo de Chantilly, na França. Um forte esquema de segurança foi montado para evitar a entrada de intrusos e, principalmente, famigerados jornalistas. Nenhum dos convidados pôde, inclusive, entrar com celular para evitar que se registrasse imagens do evento.

Especula-se que a expulsão da namorada Garnero despertou a ira da noiva possivelmente por causa de um ex-namorado em comum, o João Paulo Diniz. Caroline Bittencourt namorou Diniz durante dois meses, até novembro, antes de Alvaro. "Ela é uma mulher estonteante. Todo mundo virou a cabeça para vê-la passar. O Figo ficou louco. A outra [Daniella] não agüentou a concorrência", acredita o empresário, em declaração à Folha. Dani estava acompanhada de seis seguranças quando foi tirar satisfação.

Apesar da falta de elegância de tirar o fôlego, isso é história pra criança. A saia justa é apenas mais uma de uma série de atitudes que a moça tem tido durante esses meses em que seu cachê superfaturou. Não torço contra a felicidade de ninguém. Mas, alguém já avisou para Dani que existe o dia de amanhã?

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2005

Paulistas e cariocas em EsseEsseÁ

Ou: Os brasilienses fugiram de mim

Como fui de carnaval? Bem, obrigado. Como previsto pela experiência, muita chuva (refrescou demais até!), suor, cerveja e outras miudezas. Mas, como contar tudo o que vi, ouvi e fiz é extenso, prefiro não reproduzir por preguiça. Fica, então, guardado no meu baú como repertório para outras ocasiões. Vou, no entanto, comentar uma cena, sim, posso dizer isso, uma cena carnavalesca (não necessariamente de carnaval), envolvendo paulistas e cariocas. Para minha decepção, este ano não tenho nada a contar sobre os brasilienses, que sempre me dão um material bastante rico. E, como nada se compara ao comportamento dos turistas nacionais fora de sua terra de origem, o meu dedo coça.

Ainda era sexta-feira de carnaval. Eu, na praia, sem perceber, fiquei entre três mulheres cariocas exuberantes, com um Bob Esponja de plástico à tiracolo de quase um metro (se contar as pernas), e três mulheres e um homem paulistas discretos. Todos animados. Fora o sotaque e o distanciamento (entre eles), nada demais. Preferi focalizar minha atenção em um grupo de australianos à minha frente. Não sei o porquê, mas australiano sempre me intriga: me questiono o que fazem num lugar tão distante de casa. Me questiono o que é mais exótico, se a terra do Taz, do canguru e do ornitorrinco ou o nosso país do futebol e carnaval. Enfim, deixei os nacionais de lado e fiz questão de me entrosar com eles e compartilhar nossas excentricidades.

Uma hora depois, as cariocas começam a dizer para quem quiser ouvir que vão embora. “Vamos, amiga!”. Elas fazem de sua saída da praia um acontecimento. Primeiro, uma delas pede que um atendente dê um banho no seu Bob Esponja. “Ai, cê lava meu acompanhaaaanteeee pra miiimmm. Ele se sujou todo de areiaaaaa”, disse, toda meiga. (Não vou dramatizar fala com sotaque, heim?!). Enfim, foi o suficiente para as paulistas pararem o que estavam fazendo e passassem a só trocar olhares entre si. Bebiam caipirosca de canudinho muito vagarosamente. Uma delas começou a balançar a cabeça de um lado para o outro. Uma outra, colocou as mãos na altura do colo e cruzou as pernas, como se estivesse se preparando para algum espetáculo. Até aí, tudo bem. Quando o atendente retornou, deu-se o seguinte diálogo:

- Ai, brigada. Caraca, você não afogou meu Bob Esponja, não, né?
- Que é isso!! (risos)
- Animado pro carnaval, tá?
- (risos)
- E aí, vai sair em algum bloco?
- No Nana Banana. (Nota: O abada do Nana Banana custa entre R$ 600 e R$ 800)
- Você vai sair no Nana? Mentira. Deixa de ser nojento, garoto!
- (risos)
- Ai, que nojento. Podre. Ele vai sair no Nana Banana e eu nem isso.
- Blá, blá, blá...

Enquanto o atendente levava tudo na esportiva, uma das paulistas estava vermelha de raiva. Ninguém dava um pio. Eu vi sangue. Depois que as meninas do Rio foram embora, não deu outra. “Ai, que raiva me deu aquela garota”, “Então... mas me deu uma vontade de pular em cima dela”, "Preconceituosa filha da p..." e “Que otária, meu...” foram as declarações mais singelas do outro grupo. Aí, veio a pérola que faltava: “É por isso que eu não gosto de ir pro Rio. Carioca é tudo a mesma coisa. Eu não suporto nem ouvir aquela vozinha irritante, pxxxiiii, pxiiiii, pxxxiiii”. Blá, blá, blá.

Para quem está acostumado a ver as trocas de delicadezas entre o povo de EssePê e do Rrrio em blogs e grande mídia, não imagina o dia-a-dia, ainda mais em território neutro. Mas, cá pra nós, é impressionante a facilidade com que as pessoas têm em generalizar o comportamento de um indivíduo. Ainda mais se ele não pertencer ao seu grupo. É como se futilidade, esnobismo, burrice ou falta de educação tivesse a ver com a naturalidade, gênero, profissão, etc., dela.

Bônus Track
Além de muitas entrevistas com globais de segunda e terceira categoria, big brothers e artistas alçados à condição de estrelas, o que se viu nas transmissões do carnaval foram muitos foras ao vivo. Além do pênis de borracha que um folião balançou ao vivo na transmissão da Band, toda vez que isso acontece, me lembro de um episódio do Programa Legal, em que Luis Fernando Guimarães está fantasiado, dentro de um baile de carnaval. O barulho é ensurdecedor, ele está pulando, bêbado e bastante animado. Um repórter chega (não sei se era o Diogo Vilela), pega ele pelo braço e começa a fazer uma entrevista ao vivo, gritando:

- E aí, tá gostando do carnaval?
- Heim? Oooiiii, eu sou de Rondônia.
- Há quanto tempo está na cidade?
- O quê, eu sou de Rondônia.
- Você é gay?
- Eu sou de Ron-dô-nia.

Como se diz por aí, Carnaval não é época para perguntas difíceis. Pensar, só depois da quarta-feira de cinzas.